O último hóspede: jogo de terror interativo online

Jogo de terror interativo: O Hotel Aurora fecha todo inverno, e você aceitou cuidar dos canos até a primavera. Era só um trabalho simples, até a tempestade fechar a estrada e as luzes se apagarem de uma vez.
Agora você está preso num hotel que nunca esteve vazio. Ele precisa de um hóspede, e o último nome escrito no livro da recepção é o seu.
Explore o saguão, o corredor e o porão, descubra o que aconteceu com a menina do quarto 12 e decida em quem confiar. Cada escolha tem consequências: o que você pega, o que você deixa pra trás e como você trata quem aparece no caminho muda o final.
São 2 finais diferentes.
Jogue direto no navegador, no celular ou no computador. Dura de 10 a 15 minutos, mas vale jogar mais de uma vez.
Aviso: contém temas de terror, morte e perseguição sobrenatural.
O último hóspede
Hotel Aurora. Um conto de terror interativo com 2 finais. Cada escolha pesa, e o que você deixa para trás pode fazer falta lá depois.
O Hotel Aurora existe há mais de setenta anos, no alto de uma serra onde a neve fecha a estrada por três meses. Fecha todo inverno, e todo inverno alguém precisa ficar para cuidar dos canos, da caldeira e das goteiras.
O último zelador, Seu Aurélio, foi embora no meio de uma noite de julho sem levar as próprias coisas. O dono ligou para você com uma proposta boa demais: três meses de salário adiantado e um quarto de graça.
Você chegou ao entardecer. Às oito, a tempestade fechou a estrada. Quando você girou a chave na porta da recepção para trancar a noite lá fora, todas as luzes do hotel se apagaram de uma vez.
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
Você sente que não deve subir sem uma luz e sem uma chave para as portas. Alguma coisa aqui embaixo pode ajudar você a se preparar.
Na gaveta do balcão há uma chave-mestra amarrada com fita vermelha. Ao lado, o livro de hóspedes aberto. Você passa o dedo pelas últimas páginas: nomes de zeladores, um por inverno, todos com data de chegada e nenhum com data de saída. O último é Aurélio Matos.
Embaixo dele, escrito a caneta, com a tinta ainda fresca, está o seu nome e a data de amanhã.
A cozinha é fria e comprida, com panelas penduradas que balançam sozinhas. Numa prateleira, uma lanterna a pilha e um chaveiro com a foto desbotada de uma menina de camisola.
Da despensa vem um ruído de unhas raspando madeira.
A porta de ferro do porão está trancada. Do outro lado, o rugido da caldeira para por um segundo, como se alguém prestasse atenção. Você precisa de uma chave.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
Você sente que não deve subir sem uma luz e sem uma chave para as portas. Alguma coisa aqui embaixo pode ajudar você a se preparar.
Dentro da despensa não há nada vivo. Só um saco de sal grosso e o chão riscado em círculos, um por cima do outro, como se alguém tivesse passado semanas se protegendo ali.
Num canto, um caderno de capa preta, com a letra de Aurélio. A última página diz: “O sal segura ela. O livro é o que importa. Não aceite o relógio.”
Você enche os bolsos de sal e guarda o caderno.
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
Você sente que não deve subir sem uma luz e sem uma chave para as portas. Alguma coisa aqui embaixo pode ajudar você a se preparar.
A cozinha é fria e comprida, com panelas penduradas que balançam sozinhas. Numa prateleira, uma lanterna a pilha e um chaveiro com a foto desbotada de uma menina de camisola.
Da despensa vem um ruído de unhas raspando madeira.
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
Você sente que não deve subir sem uma luz e sem uma chave para as portas. Alguma coisa aqui embaixo pode ajudar você a se preparar.
Na gaveta do balcão há uma chave-mestra amarrada com fita vermelha. Ao lado, o livro de hóspedes aberto. Você passa o dedo pelas últimas páginas: nomes de zeladores, um por inverno, todos com data de chegada e nenhum com data de saída. O último é Aurélio Matos.
Embaixo dele, escrito a caneta, com a tinta ainda fresca, está o seu nome e a data de amanhã.
A porta de ferro do porão está trancada. Do outro lado, o rugido da caldeira para por um segundo, como se alguém prestasse atenção. Você precisa de uma chave.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
Dentro da despensa não há nada vivo. Só um saco de sal grosso e o chão riscado em círculos, um por cima do outro, como se alguém tivesse passado semanas se protegendo ali.
Num canto, um caderno de capa preta, com a letra de Aurélio. A última página diz: “O sal segura ela. O livro é o que importa. Não aceite o relógio.”
Você enche os bolsos de sal e guarda o caderno.
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
Na gaveta do balcão há uma chave-mestra amarrada com fita vermelha. Ao lado, o livro de hóspedes aberto. Você passa o dedo pelas últimas páginas: nomes de zeladores, um por inverno, todos com data de chegada e nenhum com data de saída. O último é Aurélio Matos.
Embaixo dele, escrito a caneta, com a tinta ainda fresca, está o seu nome e a data de amanhã.
A porta de ferro do porão está trancada. Do outro lado, o rugido da caldeira para por um segundo, como se alguém prestasse atenção. Você precisa de uma chave.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
O relógio é pesado e quente na sua mão. Helena sorri, aliviada e triste ao mesmo tempo. “É só isso”, ela diz. “Nunca é difícil. Esse é o problema.”
A porta do porão se abre para um amanhecer limpo. A tempestade passou. Você caminha pela estrada sem tropeçar, sem frio, com o dia nascendo atrás da serra, e chega à cidade a pé, com sol e fome. Parece um pesadelo que acabou.
Uma semana depois, no jornal, você vê que uma família de quatro pessoas fez reserva no Aurora para o inverno. O relógio, que você deixou na gaveta, parou às 3:33. Você não consegue mais dormir sem ouvir, ao longe, os passos de alguém subindo uma escada.
Você avança para cima de Helena sem pensar. Ela é mais rápida. Segura o seu rosto com as duas mãos, e o calor da caldeira parece vir de dentro do seu corpo.
“Eu avisei”, diz, quase com carinho. “Todo mundo reage assim. Depois passa.”
As luzes do porão se apagam. Quando voltam, você está de pé no meio do saguão, sem saber como subiu. O livro de hóspedes está aberto sobre o balcão, com a caneta ao lado. Alguém acabou de escrever uma linha nova, com a sua letra.
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
O quarto 7 era da gerente, Dona Helena Vidal. A cama nunca foi usada. Na escrivaninha, um diário de couro, aberto numa página marcada com uma fita.
Você lê as datas do fim para o começo. Em 1994, durante uma nevasca, a filha de Helena, Lia, de nove anos, saiu do hotel atrás de um gato e não voltou. A estrada estava fechada e a luz tinha caído. Helena passou a noite gritando o nome da menina no escuro. Encontraram Lia na primavera.
Helena não aceitou. Nas últimas páginas a letra muda: ela fez um acordo com o hotel, que prometeu manter a menina por perto. O preço era um hóspede por inverno, escolhido pelo próprio hotel, para sempre. O livro da recepção é onde os nomes ficam presos.
A última anotação: “Se alguém quiser acabar com isso, tem que queimar o livro na caldeira. Eu não tenho coragem. Ela vai oferecer um relógio. É um acordo de troca: você sai, outro entra. Não aceite.”
No quarto 12 há uma menina de camisola molhada sentada na cama, de costas. Ela tem o rosto do chaveiro da cozinha. Para de chorar quando você entra.
“Você é o novo?”, pergunta, sem virar. “Eles sempre trazem um novo.”
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
Você joga o livro no fogo sem saber o que ele é de verdade. As páginas queimam, mas os nomes escritos nelas ficam no ar, em letras de fogo, e entram pelas paredes. O hotel acorda inteiro, furioso.
Helena ri, e é um riso de pena. “Você nem sabia”, ela diz. “O Aurélio sabia, e também não deu certo. Agora o hotel não tem onde guardar os nomes, então vai guardar em quem estiver aqui.”
Você sobe correndo, mas todas as portas dão no mesmo corredor de carpete vermelho. Em algum momento, você para de correr.
Ninguém lembra exatamente quando o Aurora reabriu. O dono diz que foi no inverno seguinte. O jornal local diz que o hotel nunca fechou. O que todos concordam é que, desde então, a recepção tem uma gerente nova: uma pessoa de terno cinza, educada e sempre cansada, que sorri para todo mundo que chega e nunca é vista saindo.
Você já não se lembra do seu nome. Lembra do trabalho. Todo dia de manhã, abre o livro de hóspedes e confere os nomes, passando o dedo por cada um. Tem um carinho esquisito por eles, como se fossem filhos. O livro é o que impede o hotel de desmoronar, e o hotel é o que impede você de lembrar que um dia foi alguém.
Nas noites de tempestade, você sobe ao quarto 12 e conversa com uma menina de camisola molhada. Ela não responde mais. Olha para você com a mesma pena que você viu um dia nos olhos de outra pessoa, e fica na janela até amanhecer.
Em julho, quando a neve fecha a estrada, o telefone do saguão toca. Do outro lado, alguém de voz jovem pergunta se o Aurora precisa de um zelador para cuidar dos canos até a primavera. Você diz que sim, que precisa muito.
Quando o rapaz chega, você o recebe no saguão com um sorriso, aponta para o quadro de chaves quase vazio e pede que ele assine o livro. A luz cai, como sempre. No andar de cima, alguém arrasta uma mala pesada pelo corredor. E você, que um dia foi o último hóspede, torce em silêncio para que ele seja melhor do que você foi.
Fim: O último hóspede
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
O quarto 7 era da gerente, Dona Helena Vidal. A cama nunca foi usada. Na escrivaninha, um diário de couro, aberto numa página marcada com uma fita.
Você lê as datas do fim para o começo. Em 1994, durante uma nevasca, a filha de Helena, Lia, de nove anos, saiu do hotel atrás de um gato e não voltou. A estrada estava fechada e a luz tinha caído. Helena passou a noite gritando o nome da menina no escuro. Encontraram Lia na primavera.
Helena não aceitou. Nas últimas páginas a letra muda: ela fez um acordo com o hotel, que prometeu manter a menina por perto. O preço era um hóspede por inverno, escolhido pelo próprio hotel, para sempre. O livro da recepção é onde os nomes ficam presos.
A última anotação: “Se alguém quiser acabar com isso, tem que queimar o livro na caldeira. Eu não tenho coragem. Ela vai oferecer um relógio. É um acordo de troca: você sai, outro entra. Não aceite.”
No quarto 12 há uma menina de camisola molhada sentada na cama, de costas. Ela tem o rosto do chaveiro da cozinha. Para de chorar quando você entra.
“Você é o novo?”, pergunta, sem virar. “Eles sempre trazem um novo.”
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Ela se chama Lia. Tem nove anos, mas fala como quem espera há trinta. “Minha mãe não quis me deixar ir. O hotel fez o que ela pediu, mas não do jeito que ela esperava. Eu não posso sair daqui, e todo inverno ele pega alguém para me manter. Eu não pedi isso.”
Ela aperta a barra da camisola. “O Seu Aurélio foi bom comigo. Ficou noventa e um dias. No último, ele desceu para queimar o livro, e minha mãe estava lá. Eu não consegui ajudar.”
“Se você descer, me chama pelo nome. Eu consigo segurar ela por um minuto. Só um.”
Lia levanta o rosto, e ele já não é de criança. As luzes estouram uma a uma. A porta bate nas suas costas e algo do outro lado da casa gargalha.
Você ouve passos pequenos e molhados no teto, sobre a sua cabeça, acompanhando você até a escada.
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Ela se chama Lia. Tem nove anos, mas fala como quem espera há trinta. “Minha mãe não quis me deixar ir. O hotel fez o que ela pediu, mas não do jeito que ela esperava. Eu não posso sair daqui, e todo inverno ele pega alguém para me manter. Eu não pedi isso.”
Ela aperta a barra da camisola. “O Seu Aurélio foi bom comigo. Ficou noventa e um dias. No último, ele desceu para queimar o livro, e minha mãe estava lá. Eu não consegui ajudar.”
“Se você descer, me chama pelo nome. Eu consigo segurar ela por um minuto. Só um.”
Lia levanta o rosto, e ele já não é de criança. As luzes estouram uma a uma. A porta bate nas suas costas e algo do outro lado da casa gargalha.
Você ouve passos pequenos e molhados no teto, sobre a sua cabeça, acompanhando você até a escada.
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
No quarto 12 há uma menina de camisola molhada sentada na cama, de costas. Ela tem o rosto do chaveiro da cozinha. Para de chorar quando você entra.
“Você é o novo?”, pergunta, sem virar. “Eles sempre trazem um novo.”
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Você tenta soltar a mão dela, mas os dedos de Helena são de gelo e de ferro. “Shh”, ela diz, “já está quase”. Você não tem nada para jogar, ninguém para chamar, e a música aumenta.
Você continua. Os passos ficam mais fáceis, a música mais baixa, o rosto de Helena mais gentil. Em algum giro, você esquece o nome da rua onde mora. Em outro, esquece o seu próprio nome.
Quando a música termina, você abre os olhos, que estavam fechados fazia tempo, e vê que todos os casais ao redor abrem os olhos ao mesmo tempo e olham para você com gratidão. Helena solta a sua mão. “Obrigada”, ela diz. “Eu estava tão cansada.”
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
No quarto 12 há uma menina de camisola molhada sentada na cama, de costas. Ela tem o rosto do chaveiro da cozinha. Para de chorar quando você entra.
“Você é o novo?”, pergunta, sem virar. “Eles sempre trazem um novo.”
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Você enfia a mão no bolso e joga um punhado de sal no chão. Os casais gemem e abrem os olhos, e Helena recua um passo. Você corre de volta ao corredor, e as portas duplas se fecham atrás de você com um estrondo.
Ela se chama Lia. Tem nove anos, mas fala como quem espera há trinta. “Minha mãe não quis me deixar ir. O hotel fez o que ela pediu, mas não do jeito que ela esperava. Eu não posso sair daqui, e todo inverno ele pega alguém para me manter. Eu não pedi isso.”
Ela aperta a barra da camisola. “O Seu Aurélio foi bom comigo. Ficou noventa e um dias. No último, ele desceu para queimar o livro, e minha mãe estava lá. Eu não consegui ajudar.”
“Se você descer, me chama pelo nome. Eu consigo segurar ela por um minuto. Só um.”
Lia levanta o rosto, e ele já não é de criança. As luzes estouram uma a uma. A porta bate nas suas costas e algo do outro lado da casa gargalha.
Você ouve passos pequenos e molhados no teto, sobre a sua cabeça, acompanhando você até a escada.
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
O quarto 7 era da gerente, Dona Helena Vidal. A cama nunca foi usada. Na escrivaninha, um diário de couro, aberto numa página marcada com uma fita.
Você lê as datas do fim para o começo. Em 1994, durante uma nevasca, a filha de Helena, Lia, de nove anos, saiu do hotel atrás de um gato e não voltou. A estrada estava fechada e a luz tinha caído. Helena passou a noite gritando o nome da menina no escuro. Encontraram Lia na primavera.
Helena não aceitou. Nas últimas páginas a letra muda: ela fez um acordo com o hotel, que prometeu manter a menina por perto. O preço era um hóspede por inverno, escolhido pelo próprio hotel, para sempre. O livro da recepção é onde os nomes ficam presos.
A última anotação: “Se alguém quiser acabar com isso, tem que queimar o livro na caldeira. Eu não tenho coragem. Ela vai oferecer um relógio. É um acordo de troca: você sai, outro entra. Não aceite.”
Lia acena da cama, sem dizer nada. Já contou o que podia.
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
Ela se chama Lia. Tem nove anos, mas fala como quem espera há trinta. “Minha mãe não quis me deixar ir. O hotel fez o que ela pediu, mas não do jeito que ela esperava. Eu não posso sair daqui, e todo inverno ele pega alguém para me manter. Eu não pedi isso.”
Ela aperta a barra da camisola. “O Seu Aurélio foi bom comigo. Ficou noventa e um dias. No último, ele desceu para queimar o livro, e minha mãe estava lá. Eu não consegui ajudar.”
“Se você descer, me chama pelo nome. Eu consigo segurar ela por um minuto. Só um.”
Lia levanta o rosto, e ele já não é de criança. As luzes estouram uma a uma. A porta bate nas suas costas e algo do outro lado da casa gargalha.
Você ouve passos pequenos e molhados no teto, sobre a sua cabeça, acompanhando você até a escada.
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
O quarto 7 era da gerente, Dona Helena Vidal. A cama nunca foi usada. Na escrivaninha, um diário de couro, aberto numa página marcada com uma fita.
Você lê as datas do fim para o começo. Em 1994, durante uma nevasca, a filha de Helena, Lia, de nove anos, saiu do hotel atrás de um gato e não voltou. A estrada estava fechada e a luz tinha caído. Helena passou a noite gritando o nome da menina no escuro. Encontraram Lia na primavera.
Helena não aceitou. Nas últimas páginas a letra muda: ela fez um acordo com o hotel, que prometeu manter a menina por perto. O preço era um hóspede por inverno, escolhido pelo próprio hotel, para sempre. O livro da recepção é onde os nomes ficam presos.
A última anotação: “Se alguém quiser acabar com isso, tem que queimar o livro na caldeira. Eu não tenho coragem. Ela vai oferecer um relógio. É um acordo de troca: você sai, outro entra. Não aceite.”
Lia acena da cama, sem dizer nada. Já contou o que podia.
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Você tenta soltar a mão dela, mas os dedos de Helena são de gelo e de ferro. “Shh”, ela diz, “já está quase”. Você não tem nada para jogar, ninguém para chamar, e a música aumenta.
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
A lanterna mostra um corredor longo, de carpete vermelho comido pela umidade. A porta do quarto 3 está entreaberta. A do 7 tem uma placa de latão que diz “Gerência”. Do quarto 12 vem um choro baixo.
No fim do corredor, duas portas duplas deixam passar um fio de música.
Você enfia a mão no bolso e joga um punhado de sal no chão. Os casais gemem e abrem os olhos, e Helena recua um passo. Você corre de volta ao corredor, e as portas duplas se fecham atrás de você com um estrondo.
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
Lia acena da cama, sem dizer nada. Já contou o que podia.
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
Você grita o nome da menina. Lia surge no meio do salão e os dançarinos hesitam. Helena solta a sua mão por um segundo, olhando para a filha, e é o suficiente. Você corre de volta ao corredor, com o coração disparado.
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
No escuro atrás dela, você vê Lia, pequena e firme, esperando um sinal seu.
O quarto 3 era de Aurélio. A cama está arrumada com capricho e, na parede, riscados a carvão, há centenas de pequenos traços em grupos de sete: os dias dele no hotel. Os traços terminam no 91.
Debaixo da cama, a mala dele, fechada, com um bilhete preso por um fio: “Se você está lendo isto, ela já escolheu você. Fale com a menina do 12. Ela é a única que não mente.”
Lia acena da cama, sem dizer nada. Já contou o que podia.
As portas duplas se abrem sozinhas para um salão de baile cheio. Casais dançam em silêncio, todos de olhos fechados, em roupas de décadas diferentes. No centro, uma mulher de terno cinza estende a mão para você. É Helena, mais velha que na foto do diário, mas com os mesmos olhos.
“Dança comigo? Você deve estar cansado. Todo mundo que chega aqui está.”
O saguão é enorme, com tapetes que já foram vermelhos e um lustre coberto por um lençol. Atrás do balcão, o quadro de chaves está quase vazio. Ao fundo, uma porta de ferro leva ao porão, de onde vem o rugido abafado de uma caldeira que ninguém ligou.
No andar de cima, algo arrasta devagar pelo piso, como uma mala pesada.
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
Você grita o nome da menina. Lia surge no meio do salão e os dançarinos hesitam. Helena solta a sua mão por um segundo, olhando para a filha, e é o suficiente. Você corre de volta ao corredor, com o coração disparado.
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
No escuro atrás dela, você vê Lia, pequena e firme, esperando um sinal seu.
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
A mão dela é fria e firme. A música não tem origem, e você descobre que sabe os passos. Enquanto vocês giram, começa a reconhecer os rostos: o zelador de 1971, um casal de recém-casados, um menino com o uniforme de uma escola que não existe mais. Todos sorriem de olhos fechados.
Cada giro leva um pedaço de você: o nome da rua onde mora, a cor da sua porta, o som da sua risada. “É fácil”, diz Helena. “Você só precisa parar de lembrar.”
Você chega à porta de ferro do porão. O rugido da caldeira vem de lá, e uma corrente de ar quente passa pela fresta, com cheiro de cinza e de flores velhas.
Você abre a porta da frente. O vento joga neve no seu rosto e a estrada some a dois passos. Você anda cinco passos, depois dez, e quando se vira, o hotel continua exatamente do mesmo tamanho, com a porta aberta, a poucos metros de você.
A neve não deixa você se afastar mais. No segundo andar, alguém fecha uma cortina.
Você joga o sal no chão e risca um círculo ao redor da caldeira, repetindo o desenho das paredes da despensa. Helena para na linha, como se esbarrasse numa parede de vidro, e o livro queima.
Ela cai de joelhos. O terno cinza vai se desfazendo e, por baixo dele, aparece uma mulher muito velha, chorando em silêncio. No andar de cima, passos leves de criança, e uma risada baixa, de alguém que não ria há muito tempo.
O teto começa a ceder. Você atravessa o salão de baile, iluminado pelas chamas, onde os casais já não dançam de olhos fechados: eles olham para você, um a um, e acenam. A porta da frente abre de uma vez.
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
Você grita o nome da menina. Lia surge no meio do salão e os dançarinos hesitam. Helena solta a sua mão por um segundo, olhando para a filha, e é o suficiente. Você corre de volta ao corredor, com o coração disparado.
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
No escuro atrás dela, você vê Lia, pequena e firme, esperando um sinal seu.
Você grita o nome da menina. Lia surge no meio do salão e os dançarinos hesitam. Helena solta a sua mão por um segundo, olhando para a filha, e é o suficiente. Você corre de volta ao corredor, com o coração disparado.
A caldeira ruge como um bicho vivo. Sobre um suporte de ferro está o livro de hóspedes, aberto, com as páginas se mexendo sozinhas. Ao lado, uma mulher de terno cinza, com um relógio de bolso dourado pendurado numa corrente.
“Eu sabia que você ia descer”, diz Helena. “O Aurélio também desceu. Ninguém queima o livro. No fim, todo mundo aceita o acordo. É só pegar o relógio e ir embora. Outra pessoa chega no seu lugar, e o hotel não faz mal a mais ninguém por um bom tempo.”
No escuro atrás dela, você vê Lia, pequena e firme, esperando um sinal seu.
A neve para de cair na hora em que a porta da frente se abre. Atrás de você, o Aurora queima em silêncio, sem fumaça escura, como se o fogo fosse uma coisa pensada com cuidado. Quando o último andar desaba, o hotel inteiro parece soltar o ar de uma vez só.
Na janela mais alta, antes de o teto ceder, você viu uma menina de camisola acenando. Quando o fogo apagou, o aceno também. Você nunca soube se ela foi embora ou se, pela primeira vez, simplesmente pôde descansar.
Helena ficou para trás. Quando o dia nasceu, os bombeiros encontraram, no meio das cinzas do salão, só um terno cinza dobrado e um relógio de bolso parado às 3:33. Ninguém soube explicar por que as cinzas do livro de hóspedes estavam todas viradas para o sul, na direção da cidade.
Você chega ao povoado a pé, sem dormir, com a roupa queimada e o caderno de Aurélio no bolso. A polícia encontra o corpo dele dias depois, na mata atrás do hotel, em paz, sem marcas, com a barba crescida de noventa e um dias. Um pastor local diz que ele deve ter se perdido na neve. Você deixa a história correr assim.
Na primavera, você volta ao lugar onde o hotel ficava. No chão queimado, entre as pedras do alicerce, nasceu uma única flor branca, na altura de uma criança. Você não conta para ninguém. Dessa vez, o Aurora acabou, e quem ficou preso lá dentro pôde ir.
Fim: Libertação
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
Você agarra o livro e joga na caldeira. As páginas se abrem no fogo, e o hotel inteiro prende a respiração.
O livro se abre no fogo e os nomes sobem como faíscas. Helena grita e corre para tirá-lo da caldeira. Você grita o nome da menina: “Lia!”.
Ela atravessa o porão como vento. Segura a mãe pelos pulsos e, pela primeira vez em trinta anos, Helena para e olha para ela. O terno cinza vira uma camisola molhada, e o rosto vira o de uma mulher exausta, de luto. “Minha filha”, ela diz.
“Corre!”, Lia manda. O fogo sobe pelas paredes e o hotel inteiro geme. Você sobe a escada de dois em dois degraus, com uma mãozinha fria na sua, e a porta da frente abre fácil, como se o próprio hotel quisesse ser deixado.
A neve para de cair na hora em que a porta da frente se abre. Atrás de você, o Aurora queima em silêncio, sem fumaça escura, como se o fogo fosse uma coisa pensada com cuidado. Quando o último andar desaba, o hotel inteiro parece soltar o ar de uma vez só.
Lia está ao seu lado, com os pés descalços na neve e a camisola seca pela primeira vez em trinta anos. Ela olha as luzes da cidade lá embaixo, onde nunca foi, e aperta a sua mão. “É bonito”, diz. “Eu achava que ia ser maior.” Ela ri, e a risada é de criança de verdade.
Helena ficou para trás. Quando o dia nasceu, os bombeiros encontraram, no meio das cinzas do salão, só um terno cinza dobrado e um relógio de bolso parado às 3:33. Ninguém soube explicar por que as cinzas do livro de hóspedes estavam todas viradas para o sul, na direção da cidade.
Você chega ao povoado a pé, sem dormir, com a roupa queimada e o caderno de Aurélio no bolso. A polícia encontra o corpo dele dias depois, na mata atrás do hotel, em paz, sem marcas, com a barba crescida de noventa e um dias. Um pastor local diz que ele deve ter se perdido na neve. Você deixa a história correr assim.
Na primavera, você volta ao lugar onde o hotel ficava. No chão queimado, entre as pedras do alicerce, nasceu uma única flor branca, na altura de uma criança. Você não conta para ninguém. Dessa vez, o Aurora acabou, e quem ficou preso lá dentro pôde ir.
Fim: Libertação
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